Na Assembleia
Nacional Popular (ANP),[1]
o presidente da mesa dirigindo-se aos
deputados no momento da votação faz-lhes, em
crioulo, as perguntas de rotina: Kim ke na
vota a favor?; kim ke na vota kontra? ; Kim ke si boka
ka sta la?[2]
A
minha preocupação é a seguinte: Si tem kim ke si boka ka sta
la, anta kê ki na fasi la (na
Asembleia)!?
Partindo
do princípio que na ANP são tratadas questões de interesse Nacional; que a
expressão do voto, incluindo a ausência de voto (abstenção), resultam de uma
tomada de decisão responsável, ponderada e fundamentada, então não se percebe
por que motivo os deputados concordam em responder à seguinte pergunta: Quem não se quer intrometer neste
assunto?
Com efeito, Kim ke si boka ka sta la não é o
equivalente da expressão “quem se
abstém”. Kim ke si boka ka sta la
corresponderia, em língua portuguesa, às expressões Quem não quer ter nada a ver com isto? ou ainda Quem não se quer
intrometer (em determinado assunto)?,
entre outros possíveis equivalentes de tradução.
Não colherá o argumento de
que escolha da expressão Kim ke si
boka ka sta la se teria ficado a dever à dificuldade de construir, em
crioulo, uma expressão com o verbo (se)
abster. Este
argumento é tanto menos válido quanto na contagem dos votos se pode ouvir, também em crioulo — x voto a favor, x kontra e x ABSTENSON.
Não
colherá, ainda, o argumento de que a opção pela expressão «Kim ke si boka ka sta la» permitiu
evitar o recurso ao empréstimo, isto porque vota
contra / vota a favor são também expressões emprestadas ao
português. É importante não esquecer que o empréstimo entre línguas é um
fenómeno natural e inevitável quando existem línguas em contacto, embora sempre que possível, o equivalente de tradução deva
ser a opção preferida em detrimento do recurso ao empréstimo.
Porém,
como a equivalência entre línguas não é total, no exercício da tradução da
expressão quem se abstém deveriam ter sido acauteladas, entre
outras, as dimensões denotativa (significado literal) e conotativa (sentido ou
significado pragmático, contextual, sociocultural...).
No
caso específico da expressão Kim ke
si boka ka sta la para além de não corresponder do ponto de vista do conteúdo, ou do significado literal,
à expressão Quem se abstém, Kim ke si boka ka sta la” pertence a um registo
informal e a um nível de língua (familiar ou pouco cuidado) não adequado ao
contexto da ANP.
Uma expressão como kim ke disidi ka vota ou kim ke ka na vota teria sido
mais adequada. Isto porque, do ponto de vista sociolinguístico, seriam
expressões mais neutras, menos marcadas, correspondendo a um nível de língua
socialmente mais adequado ao contexto (ANP). Por outro lado, a inclusão do
verbo disidi (decidir) traduziria
a responsabilidade cívica do deputado, que é a de tomar decisões em consciência, entendendo-se a ausência de voto, ou o acto
de se abster como o resultado de uma decisão
ponderada e fundamentada.
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