11/05/2014

DIZ-ME COMO FALAS ... (NHA BOCA KA STA LA... ! ) Por: Zaida Lopes Pereira





Na Assembleia Nacional Popular (ANP),[1] o presidente da mesa dirigindo-se aos deputados no momento da votação faz-lhes, em crioulo, as perguntas de rotina: Kim ke na vota a favor?; kim ke na vota kontra? ; Kim ke si boka ka sta la?[2]

A minha preocupação é a seguinte: Si tem kim ke si boka ka sta la, anta kê ki na fasi la (na Asembleia)!?

Partindo do princípio que na ANP são tratadas questões de interesse Nacional; que a expressão do voto, incluindo a ausência de voto (abstenção), resultam de uma tomada de decisão responsável, ponderada e fundamentada, então não se percebe por que motivo os deputados concordam em responder à seguinte pergunta: Quem não se quer intrometer neste assunto?
                      Com efeito, Kim ke si boka ka sta la não é o equivalente da expressão “quem se abstém”. Kim ke si boka ka sta la corresponderia, em língua portuguesa, às expressões Quem não quer ter nada a ver com isto? ou ainda Quem não se quer intrometer (em determinado assunto)?, entre outros possíveis equivalentes de tradução.
                      Não colherá o argumento de que escolha da expressão Kim ke si boka ka sta la se teria ficado a dever à dificuldade de construir, em crioulo, uma expressão com o verbo (se) abster. Este argumento é tanto menos válido quanto na contagem dos votos se pode ouvir, também em crioulo x voto a favor, x kontra e x ABSTENSON.
                      Não colherá, ainda, o argumento de que a opção pela expressão «Kim ke si boka ka sta la» permitiu evitar o recurso ao empréstimo, isto porque vota contra / vota a favor são também expressões emprestadas ao português. É importante não esquecer que o empréstimo entre línguas é um fenómeno natural e inevitável quando existem línguas em contacto, embora sempre que possível, o equivalente de tradução deva ser a opção preferida em detrimento do recurso ao empréstimo.
                      Porém, como a equivalência entre línguas não é total, no exercício da tradução da expressão quem se abstém deveriam ter sido acauteladas, entre outras, as dimensões denotativa (significado literal) e conotativa (sentido ou significado pragmático, contextual, sociocultural...).
                      No caso específico da expressão Kim ke si boka ka sta la para além de não corresponder do ponto de vista do conteúdo, ou do significado literal, à expressão Quem se abstém,  Kim ke si boka ka sta la pertence a um registo informal e a um nível de língua (familiar ou pouco cuidado) não adequado ao contexto da ANP.
                      Uma expressão como kim ke disidi ka vota ou kim ke ka na vota teria sido mais adequada. Isto porque, do ponto de vista sociolinguístico, seriam expressões mais neutras, menos marcadas, correspondendo a um nível de língua socialmente mais adequado ao contexto (ANP). Por outro lado, a inclusão do verbo disidi (decidir) traduziria a responsabilidade cívica do deputado, que é a de tomar decisões em consciência, entendendo-se a ausência de voto, ou o acto de se abster como o resultado de uma decisão ponderada e fundamentada.

Zaida Lopes Pereira


[1]                            .A ortografia e a escrita do crioulo não obedecem, neste texto, a nenhuma regra particular.
[2]                            O Parlamento Infantil adoptou a mesma expressão.

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