Contra o Paludismo, Contra a Cólera, Contra as
Barracas da Campanha Eleitoral...
Desde finais de
Março que a Praça do Império e ruas adjacentes se transformaram num autêntico
campo de batalha, onde as proprietárias de barracas disputam, algumas chegando
a vias de facto, os centímetros quadrados mais estratégicos ― entenda-se os
que ficam nas imediações das duas sedes de
campanha: a de Nuno Nabian e a do PAIGC. Isto porque, os funcionários da campanha são, por estas alturas, a clientela mais
certa, porque a mais endinheirada. Têm alguma liquidez e pouco tempo disponível
para irem comer a casa.
Também há os
mirones, autênticas sentinelas acantonadas no
perímetro das sedes de campanha e que, ao longo das horas, vão fazendo
previsões, debitando ignorâncias e, vá-se lá saber, lançando boatos
convenientes; há ainda os desocupados que desde cedo se posicionam talvez à
espera que lhes saia a sorte grande e assim consigam algum surni
eleitoral, como descarregar
as carrinhas dupla-cabine contendo material de propaganda. Todos potenciais
clientes das proprietárias de barracas!
Na avenida Amílcar
Cabral, pela manhã, degolam-se frangos e a água ensanguentada mata a sede de
uma pequena palmeira plantada como muitas outras, em 2011, nos passeios ao
longo da avenida. Aqui esventra-se o peixe, ali esquarteja-se o leitão, acolá
preparam-se ferros (espetadinhas). Todos os condimentos providenciados,
aguarda-se o cliente!
Todo este exército se move ao som dos décibeis disparados
horas a fio por orquestras desafinadas montadas à porta de cada uma das sedes
de campanha, por mera coincidência, separadas por escassos metros. Uma
música de qualidade duvidosa onde as letras, motivadas pela circunstância,
foram enxertadas sobre um fundo ou de Hip-Hop
ou de Reggae, ou de Broska, ou de Gumbé,
ou de etc,
No final do dia,
recolhe-se algum material, mas mesas e cadeiras não! É preciso marcar o
território arduamente conquistado. Aqui entram em jogos os guardas-nocturnos, que em troca de algo se
comprometem a vigiar a restante munição, a
prestar um serviço de extensão para-eleitoral.
O último dia da
campanha é o ataque final à paciência dos moradores. Estes que ao longo de
semanas tiveram de conviver com o inimigo, com o cheiro pestilento a urina e a
vinho fermentado; estes que tiveram de apanhar as garrafas, e as latas, e os
sacos de água espalhados pelas valetas frente às suas casas; estes que tiveram
de suportar a ininterrupta cacofonia das orquestras; estes que tiveram de fugir
às armadilhas montadas nos passeios tomados pelas proprietárias de barracas,
com todo o seu arsenal de cadeiras, de mesas, de fogareiros, de sacos de
carvão, de arcas ferrugentas para guardar o gelo, de bidões de água, de caixas
de cerveja, de caixas de vinho em pacotes de um litro,de frascos de maionese e de outros tantos
condimentos; estes que rezavam para que não houvesse segunda volta, para que as
proprietárias de barracas pudessem regressar às suas casernas...
Estes decidiram que é preciso agir! Que é preciso exigir que se devolva a
dignidade à Praça à Avenida, à Cidade;
que não se admitam mais super sedes de campanha num mesmo quarteirão! E
porque Quem Quer a Paz Prepara a Guerra, Estes apontam as baterias ao responsável pela cidade de Bissau ― Senhor Presidente da Câmara―, por Este
nada ter feito, talvez demasiado ocupado nesta campanha, ou talvez por cautela,
pois já se sabe que nessas coisas de pôr o pessoal na ordem, o guineense tem
receio das forças obscuras, do Irã, do corté. Ou porque, em períodos de
Campanha, talvez seja mais prudente agradar a Gregos a Troianos e a
Proprietárias de Barracas!
Zaida Correia Lopes
Pereira
Abril, 2014
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