11/05/2014

CAMPANHAS HÁ MUITAS... Por Zaida Lopes Pereira





Contra o Paludismo, Contra a Cólera, Contra as Barracas da Campanha Eleitoral...

Desde finais de Março que a Praça do Império e ruas adjacentes se transformaram num autêntico campo de batalha, onde as proprietárias de barracas disputam, algumas chegando a vias de facto, os centímetros quadrados mais estratégicos entenda-se os que ficam nas imediações das duas sedes de campanha: a de Nuno Nabian e a do PAIGC. Isto porque, os funcionários da campanha são, por estas alturas, a clientela mais certa, porque a mais endinheirada. Têm alguma liquidez e pouco tempo disponível para irem comer a casa.

Também há os mirones, autênticas sentinelas acantonadas no perímetro das sedes de campanha e que, ao longo das horas, vão fazendo previsões, debitando ignorâncias e, vá-se lá saber, lançando boatos convenientes; há ainda os desocupados que desde cedo se posicionam talvez à espera que lhes saia a sorte grande e assim consigam algum surni eleitoral, como descarregar as carrinhas dupla-cabine contendo material de propaganda. Todos potenciais clientes das proprietárias de barracas!

Na avenida Amílcar Cabral, pela manhã, degolam-se frangos e a água ensanguentada mata a sede de uma pequena palmeira plantada como muitas outras, em 2011, nos passeios ao longo da avenida. Aqui esventra-se o peixe, ali esquarteja-se o leitão, acolá preparam-se ferros (espetadinhas). Todos os condimentos providenciados, aguarda-se o cliente!

Todo este exército se move ao som dos décibeis disparados horas a fio por orquestras desafinadas montadas à porta de cada uma das sedes de campanha, por mera coincidência,  separadas por escassos metros. Uma música de qualidade duvidosa onde as letras, motivadas pela circunstância, foram enxertadas sobre um fundo ou de Hip-Hop ou de Reggae,  ou de Broska, ou de Gumbé, ou de etc,

No final do dia, recolhe-se algum material, mas mesas e cadeiras não! É preciso marcar o território arduamente conquistado. Aqui entram em jogos os guardas-nocturnos, que em troca de algo se comprometem a vigiar a restante munição, a prestar um serviço de extensão para-eleitoral.

O último dia da campanha é o ataque final à paciência dos moradores. Estes que ao longo de semanas tiveram de conviver com o inimigo, com o cheiro pestilento a urina e a vinho fermentado; estes que tiveram de apanhar as garrafas, e as latas, e os sacos de água espalhados pelas valetas frente às suas casas; estes que tiveram de suportar a ininterrupta cacofonia das orquestras; estes que tiveram de fugir às armadilhas montadas nos passeios tomados pelas proprietárias de barracas, com todo o seu arsenal de cadeiras, de mesas, de fogareiros, de sacos de carvão, de arcas ferrugentas para guardar o gelo, de bidões de água, de caixas de cerveja, de caixas de vinho em pacotes de um litro,de  frascos de maionese e de outros tantos condimentos; estes que rezavam para que não houvesse segunda volta, para que as proprietárias de barracas pudessem regressar às suas casernas...

Estes decidiram que é preciso agir! Que é preciso exigir que se devolva a dignidade à Praça  à Avenida, à Cidade; que não se admitam mais super sedes de campanha num mesmo quarteirão! E porque Quem Quer a Paz Prepara a Guerra, Estes apontam as baterias ao responsável pela cidade de Bissau Senhor Presidente da Câmara, por Este nada ter feito, talvez demasiado ocupado nesta campanha, ou talvez por cautela, pois já se sabe que nessas coisas de pôr o pessoal na ordem, o guineense tem receio das forças obscuras, do Irã, do corté. Ou porque, em períodos de Campanha, talvez seja mais prudente agradar a Gregos a Troianos e a Proprietárias de Barracas!

Zaida Correia Lopes Pereira
Abril, 2014

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