02/12/2018

HISTÓRIAS QUE EU TENHO PARA CONTAR: A GUINÉ-BISSAU UM PAÍS DE MACHISTAS - A ASSEMBLEIA NACIONAL POPULAR UM DOS GRANDES NINHOS DESTA ESPÉCIE


Estamos todas/os chocadas pelas declarações misóginas de um deputado que por infeliz e desastrosa coincidência até é o Presidente da Comissão Especializada Parlamentar para os assuntos da Mulher e Criança. Mas na verdade uma observadora atenta do que se passa à volta destes assuntos de mulheres/igualdade pode muito facilmente perceber a leviandade, a ligeireza o coquetismo (difícil de engolir) com que os homens deste órgão de soberania, os nossos deputados lidam com o assunto MULHER. Estes "senhores" são sempre tão bem educados, ficam sempre tão contentes e aparvalhados em ter tantas mulheres no Parlamento, são sempre tão cavalheiros, dão-nos cadeiras para sentar, chamam-nos as "nossas mulheres", dizem que " elas não podem ficar de pé", dizem " ...elas são boniiitas", em conversas entrecortadas um deputado diz ao outro ..." ehehe vocêêê ..eu sei..gosta de coisas boooaas..." . Minhas/meus camaradas este era o ambiente reinante nas sessões de debate parlamentar em que as mulheres estiveram presentes em massa no Parlamento. Quem observa com olhos de ver e ouvidos de ouvir percebe que o caminho a trilhar é longo. As mulheres não estão lá para ouvir piropos nem são "coisas boooas". Que ordinariçe , que falta de respeito, que falta de cultura . Mas assim foi. Para além de lidar com este tipo de boçalidade temos ainda os que não obstante serem bem formados e constituirem um grupo que poderia servir de suporte à luta pela igualdade pouco ou nada fazem porque não se prepararam minimamente para este debate sobre a lei da paridade . Foi simplesmente degradante ver o tão pouco ou nada alguns deste deputados esclarecidos e bem preparados sabiam da lei de paridade. Não tinham lido uma parágrafo sequer da lei que estava em discussão. Não sabiam absolutamente nada sobre o processo desta lei. Não lhes interessava minimamente , não estavam nem aí. Mais valia terem estado calados porque prestaram um péssimo serviço às mulheres e ao país. Depois destas intervenções perdi o fôlego, perdi a energia de que dispunha para trabalhar sobre esta questão tão importante para o desenvolvimento de qualquer país. O conhecimento e o interesse por este assunto está muito aquém do desejado roçando o estado primitivo .

O ter caído a questão da alternância no artigo 4/2 faz parte do processo. Aceito melhor este facto do que o ambiente descrito acima que eu pude observar. Saí do parlamento antes da votação. Não por tristeza pela queda da citada alínea do artigo mas porque sentia-me enjoada e exausta perante um cenário tão desinteressante.

Alerto a todas as mulheres desta terra que estejam atentas que não permitam "charlaçarias" e muito menos atitudes coquetes quando o assunto é de trabalho ou quando o assunto é mulher. A isto chama-se "ATITUDES DE DOMINAÇÃO" dos machos . Infelizmente este país está cheio deles e o Parlamento não é exceção.

21/10/2018

Nota à notícia publicada pela Agência Lusa e reproduzida pelos jornais Diário de Notícias e Correio da Manhã de Portugal a 18 de Outubro de 2018

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A propósito da minha afirmação “ A Guiné Bissau é um país de mulheres machistas”  publicada pela agência Lusa e reproduzida pelo CM e JN de Portugal gostaria de esclarecer o seguinte :  esta entrevista foi-me solicitada como parte de uma grande reportagem que está a ser preparada por dois jornalistas (um guineense e uma portuguesa) sobre a excisão feminina  e foi neste contexto que a conversa se desenrolou e fiz algumas afirmações entre as quais esta que não nego, aliás confirmo.  No entanto muito mais foi dito e não me foi explicado no momento da entrevista que esta também seria usada para publicação imediata e muito menos com esta carga sensacionalista e até negativa com que surge nos meios de comunicação social.  Pode ter havido um mal entendido e,  por isso, não quero que esta minha nota seja entendida como um desentendimento entre mim e os jornalistas em causa, isto porque, são profissionais pelos quais nutro um grande respeito.  

Permitam-me, aqui,  muito humildemente e publicamente pedir desculpas a todas as minhas compatriotas que se sentiram lesadas por estas minhas afirmações. Não há mulheres machistas na Guiné-Bissau ? Há sim e muitas. Mas também há outras e são muitas as mulheres que têm vindo a trabalhar e a batalhar para que o papel das mulheres seja reconhecido e considerado em todos os domínios da vida pública deste país. São mulheres capazes, combativas e de muito valor que muito têm contribuído nesta longa e dolorosa caminhada que temos vindo a fazer. Não fosse o papel interventivo, corajoso e persistente destas mulheres hoje não estaríamos a falar dos direitos das mulheres e muito menos  de uma lei de  cotas  que muito se deve ao trabalho persistente, coordenado e solidário das  várias organizações de mulheres guineenses .
Hoje mais do que  nunca o trabalho das  várias redes de organizações de mulheres  têm mostrado os seus frutos. Mais do que nunca as mulheres têm conseguido trabalhar na mesma direção . Por isso mesmo mais uma vez aceitem as minhas desculpas e acreditem que eu, mais do que ninguém acredito na força das mulheres,  na solidariedade  entre as mulheres  e de que só juntas poderemos chegar onde queremos e onde  por direito devemos estar  e iremos estar . Por isso mesmo a Guiné não é nem nunca será um país de apenas “mulheres machistas”.

Helena Neves Abrahamsson



Helena Naves Abrahamsson
Presidente Mulheres Juristas


07/09/2018

UM DIA DE CHUVA EM BISSAU !






A Mi e esta chuva que não pára ! 


Bissau chove há quase 2 dias sem parar.  Normalmente a chuva é sinal riqueza e de  abundância. Abundância de verde, abundância de comida, abundância de água,  o prenúncio de uma vida que cresce, que floresce e que se desenvolve. Devia ser assim. Mas nem sempre é.  Aqui neste meu canto do mundo a chuva põe à mostra toda a nossa vergonha, a nossa pobreza, a nossa miséria. 

Ela sempre viveu por aqui, no centro do bairro de  Chão de Papel, numa casa humilde coberta de palha que escapou aos buldozeres da Câmara de Bissau da época colonial quando urbanizaram esta zona.   Hoje em vez de uma casa melhorada,  os sucessivos infortúnios do tempo transformaram a casa,  outrora coberta de palha,  numa barraca precária coberta de chapa esburacada. Uma parte do espaço da antiga casa que desapareceu  e o quintal,  antigamente,  espaço de convívio da família foi dividido em pedaços para arrendar.  Ali nasceu um Clandô para almoços de baixo custo e um contentor feito loja de produtos de  primeira necessidade.  É destas rendas que a familia sobrevive. Esta manhã, com um pano aos ombros e olhos tristes ela passeava debaixo da chuva.  Saio de casa, vejo-a e pergunto " Mi o que estás a fazer debaixo da chuva ?  Tu que ainda por cima andas sempre doente" . Volta-se para mim e com a maior naturalidade do mundo diz-me " Leninha bom dia. Como estás e os teus rapazes ? Tens noticias ?"  . E eu surpreendida pela sua naturalidade respondo com alguma impaciência , aquela impaciência apenas aceitável entre  pessoas que se conhecem há muito tempo " Mi , mpuntau , kêê  kuu na fassi bas di tchuuuba?" . Resposta dela : "Waii ... dentro ou fora de casa  … huuummmm …nada escapa  a esta  chuva matreira de vários dias. A casa está alagada o quintal pior ainda. Dentro ou fora de casa tanto faz".  Olhei para ela e claro fiquei sem palavras. A seguir falámos de outras coisas e ela sem raiva, nem revolta, com o olhar e a voz doces, mudou de conversa e prosseguiu falando de coisas banais. Pensei cá para mim: "Ela aprendeu a proteger-se da dor abstraindo-se da realidade ".

A pobreza excessiva provoca conformismo, apatia, aceitação do inaceitável. 
A pobreza  é nossa vizinha, mora ao nosso lado,  em cada esquina, em cada quarteirão desta cidade, desta terra tão bonita, tão rica de tudo menos de vontade humana para mudar. 




23/08/2018

A Mulher e as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação - O caso da Guiné-Bissau

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A Mulher e as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação - o caso da  Guiné-Bissau 


1.     Introdução
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Como surgiu a ideia de se fazer uma Conferência sobre este tema ?

Enquanto mulher sentindo-me tocada por uma série de acontecimentos negativos e muito prejudiciais às mulheres  guineenses, que se vem repetindo há bastante tempo e que de alguma forma tem a ver com as facilidades  de comunicação que as novas tecnologias de comunicação hoje nos oferecem.
Resolvi escrever um pequeno artigo sobre o assunto que publiquei no Jornal o Democrata e em  algumas redes sociais , artigo este a que dei no seguinte titulo
“A Mulher Guineense e o Direito ao respeito”. 
O artigo trata-se essencialmente da nossa caminhada histórica, das nossas conquistas enquanto guineenses mas também das nossas perdas.  Estas perdas reflectidas na imagem que se tem passado das mulhers guineenses nos vários espaços de comunicação digital hoje à nossa disposição.
Na sequência deste artigo o Dr. Carlos Cardoso lançou-me o desafio de vir cá falar sobre este tema ou seja o significado das novas tecnologias de infirmação e comunicação na vida das mulheres guineenses e a sua  influência no equilibrio do género.
Senti-me e sinto-me lisonjeada pelo convite daí que, não sendo embora especialista nesta área das tecnologias , não resisti ao desafio e cá estou não para  ensinar nada nem trazer soluções mas sim  para levantar questões e juntos pensarmos no que é possivel  fazer para que façamos melhor uso e tenhamos melhor aproveitamento destes meios à nossa disposição .

Assim o desafio é reflectirmos sobre o assunto  e  propor acções concretas que visem fazer com que estes meios tecnológicos sejam instrumentos de construção e de defesa do direito à igualdade e não um instrumento de destruição e desestruturação de relações sociais e políticas como se tem verificado em alguns casos. As tecnologias de informação em especial a tecnologia digital que coloca ao alcance de todos a produção e a obtenção de informação  pode ser usada para vários fins  dependendo da estratégia estabelecida, do nivel de competência dos produtores e usuários, da consciência moral e ética  entre outros critérios.  Por isso mesmo qualquer sociedade hoje é obrigada a olhar e a pensar que  papel está reservado a estas tecnologias, de que forma são usados e quais as consequências do seu uso no  desenvolvimento desta mesma sociedade.



2.     Delimitação do conceito:

Aqui neste debate teremos em conta apenas a  vertente da tecnologia respeitante a informação e comunicação que é o resultado da fusão de três vertentes técnicas desta realidade ou seja a informática,  telecomunicações e as mídias eletrônicas.  Desta fusão resultou a tecnologia de informação  e comunicação que abrange uma série de meios de comunicação abertas e ao dispor de qualquer pessoa  desde que esteja na posse de um computador e de conhecimentos suficientes para aceder  ou produzir  informações  e comunicar.


3.     Expansão do acesso à Informação (Alguns exemplos em África)

 As tecnologias de informação essencialmente na vertente das telecomuninações conheceu uma expansão sem precedentes nos ultimos 20 anos. Em África em apenas 10 anos (estatisticas antigas de 1998 a 2008 ) o usos dos telemóveis cresceu em média 67%, .

A nivel da África vários serviços  inovadores e adaptáveis às necessidades de cada país ou comunidades  foram criados na maioria dos casos com apoio de grandes empresas ou organizações de países mais desenvolvidos com técnicos e especialistas locais para servir as necessidades locais.


Alguns exs.  apenas para ilustrar

·      M.Collect –Trade in hand, um programa que se expandiu em quase toda a Africa occidental de transações directas (2006 lançado no Burkina Faso e no Mali ) que  informa diariamente os agricultores dos preços de mercado dos seus produtos, através de mensagens SMS.


·       O Centro da Fundação Grameen para a Tecnologia criou um programa semelhante no Uganda, designado Community Knowledge Worker (CKW), que recolhe e faz a distribuição de informações sobre produtos agrícolas por telemóvel, estabelecendo um elo vital entre agricultores e compradores.



·      O Hive Colab em Kampala, no Uganda, é exemplo de um centro de inovação sediado em África dirigido a jovens empresários do sector tecnológico. Este é um projecto de trabalho  designado “A Evolução dos Sistemas de Informação em África 31” aberto e comunitário, centrado em projectos inovadores, com acesso à internet e um ambiente profissional descontraído para desenvolver ideias, programas comuns e realizar eventos, entre muitos outros projectos desenvolvidos pelos africanos,  no e para o continente Africano.




4.     O caso das  Mulheres em África e as tecnologias de informação e comunicação:


Exs dos vários níveis  de acesso e utilização das tecnologias de informação pelas mulheres em África

·      Os negócios de telecenters mulheres ugandesas
·      Criação de  serviços de Pay-tack – serviço de tranferência de dinheiro na Nigéria por jovens mulheres académicas através de bolsas de apoio às startupps.
·      Programa mais alargado como por ex.Working to Advance Science and Technology Education for African Women Foundation (WAAW) - Programas de capacitação  específicamente para mulheres em África . Estima-se que em 10 anos mais de 150 000 mulheres foram formadas an Nigéria, África do Sul e Kenia em alfabetização digital  (Digital literacy) desde 2013[1]

Segundo o  Estudo “A Evolução dos Sistemas de Informação em África”  as  potencialidades das novas tecnologias para o bem, em África, dependem do propósito com que forem usadas. A acção política deve centrar-se, por isso, no apoio ao desenvolvimento de aplicações destinadas a melhorar

·      A segurança das pessoas,
·      A responsabilidade individual
·       A transparência. “[2]


 Das várias pesquisas realizadas constata-se que no geral a entrada das novas tecnologias de informação e comunicação em África começaram por ter um objectivo essencialmente commercial. No entanto em pouco tempo as TICs passam a ser indispensáveis em quase todas as áreas em particular  no impulse à própria democracia numa grande parte dos países nãom só em África.

Um inquérito encomendado pela Fundação das Nações Unidas e a Fundação Vodafone concluiu que, para todas as ONG, destacam-se entre os principais benefícios da tecnologia móvel os seguintes:

·      Poupança de tempo (mencionado por 95 por cento das 560 ONGs inquiridas)
·      Capacidade de mobilizar ou organizar pessoas rapidamente (91 por cento
capacidade de chegar a audiências que eram difíceis ou impossíveis de alcançar anteriormente (74 por cento)
·      Capacidade de transmitir dados com maior rapidez e precisão (67 por cento)
·      Capacidade de recolher dados com maior rapidez e exactidão (59 por cento).Trabalho de Pesquisa do CEEA, No . 2 14 A. [3]


5.     A literacia e a  ileteracia digital

Fala-se hoje muito sobre o alfabetismo e o analfabetismo digital. Em que consiste esta realidade?  Haverá certamente  níveis de alfabetismo/analfabetismo, de conhecimento assim como em qualquer área.

O DESAFIO é atingir cada vêz níveis mais elevados de alfabetismo digital. Quando falamos de literacia digital estamos a falar de códigos, do domínio de códigos a partir do qual se constrói todos os instrumentos digitais ao nosso alcance hoje o termo mais usado é “coding”. A partir dos códigos são construidos os diversos softwhers, os webbpages, os apps, as  diversas categorias de redes sociais  tais como facebooks, twitters, entre outros meios de comunicação que nem imaginámos existirem e que suportam quer a comunicação verbal escrita como a circulação de documentação .

Porque falamos então do alfabetismo e o analfabetismo digital ? Dependendo do nosso nível de alfabetização neste domínio assim haverá mais campo de actuação mais espaços de comunicação , mais instrumentos que permitirão actividades de character pessoal e professional.

Cada vêz mais o conhecimento destas novas tecnologias de informação e comunicação traduzem-se em PODER, actuando na vida privada, na vida económica, na cultura, na identidade  das próprias pessoas.


Em África houve uma explosão do uso das tecnologias de informação no processo democrático quer para o bem quer para o mal. E nós ? A Guiné- Bissau ? Nós as mulheres guineenses ? Onde estamos ?


6.     O CASO DA GUINÉ-BISSAU

a)     Muito cedo a Guiné-Bissau teve uma legislação que se pode considerar bastante progressista para a época e que favorecia a situação da mulher de muitas formas :
·      A Constituição da República de 1973  estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres  (arts. 24 e 25 ) e em termos de legislação avulsa  tivemos
·       A lei do divórcio que introduziu o mutuo consentimento como fundamento de divórcio,  
·      a lei da união de facto que veio permitir, sem preconceitos próprios de ordenamentos jurídicos influenciados pelas normas do catolicismo,  o aborto desde que praticada em condições de segurança e  haja  consentimento dos dois parceiros, o reconhecimento oficial da vida em comum entre um homem e uma mulher e ainda
·      A lei de igualdade entre filhos que elimina a diferenciação entre filhos legitimos e ilegitimos.
 A luta e a independência abriram novos horizontes  às mulheres guineenses no que se refere à sua afirmação enquanto titulares de direitos e obrigações  e enquanto cidadãs. Infelizmente,  como em quase todas as áreas da vida nacional,  houve um grande fracasso e a igualdade de direitos da mulher  teve o mesmo destino ou seja um retrocesso considerável.  Este retrocesso é comprovado não só pelas estatísticas que nos apresentam  as diferenças no número de mulheres em cargos de decisão entre os anos 80/90 aos dias de hoje mas também um retrocesso no próprio comportamento da sociedade face à imancipação da mulher. As mulheres que outora participaram na luta armada, que fizeram parte dos orgãos politicos de decisão nos primeiros anos da independência gozaram de uma comprovada aceitação, tiveram a admiração e o respeito por parte quer dos protagonistas politicos da época quer da população em geral.  Quem viveu o pós-independência na Guiné-Bissau há de se identificar de uma forma ou outra com o aqui exposto. No entanto o processo do pós – independencia não foi linear e a constante instabilidade politico militar  que assolou o país entre outros factores, provocaram um retrocesso  no processo de desenvolvimento afectando sobremaneira a participação das mulheres nos centros de decisão.
A Guerra civil de 1998 acabou quase por pôr fim a esta participação passando o foco da vida política do país a estar  quase que exclusivamente concentrado na resolução dos sucessivos conflitos.
No centro de tantos desaires um aspecto  positivo deve ser mencionado que é o desenvolvimento de uma sociedade civil mais forte e mais coesa que através   das acções de várias  organizações de mulheres manteve-se o tema da igualdade e do empoderamento no centro das preocupações. Através deste movimento a luta pela imancipação manteve-se acesa  e o tema não foi totalmente  eliminado do debate publico não obstante a decrescente fraca participação das mulheres an vida política

Os constantes conflitos não desestruturaram apenas o próprio Estado mas sim provocaram uma forte degradação de valores ético-culturais e de alguns princípios ideológicos originados pela luta de libertação. A importância vital que se deu á participação da mulher na luta armada e consequentemente nos anos a seguir á independência não só foi desaparecendo como as  mulheres que ousarem entrar na política passaram a ser alvos a abater.  Refira-se que não são alvos a abater num confronto político ético e transparente mas sim pelas formas mais desonestas que se possam imaginar: por via de insultos, difamação, mentiras que recaiem não só sobre a vida privada destas mulheres mas mais específicamente sobre a sua vida íntima, sobre aspectos da vida privadas cujo resguardo é fundamental para a própria auto-estima da mulher e de sua familia..

Passámos de uma  sociedade machista para uma cruelmente machista. Já não bastam as regras da sociedade patriarcal que as mulheres e meninas guineenses têm que enfrentar diáriamente e que as submete às mais diversas formas de maus tratos e humilhações,  desde mutilação genital, casamento forçado e outras formas de violação dos seus direitos humanos, agora,  também têm que enfrentar os  machos da praça sem rosto que são as redes sociais.  No entanto refira-se que  o nivel intelectual e de formação  de muitos que acedem a estas redes  é muito baixa e pouco mais sabem  que juntar letras e  formar insultos,  atirar calúnias sobre mulheres que ousaram pôr o pé fora do círculo que a sociedade tradicionalmente lhes reservou.

A maior parte das vezes estas pessoas  escondem-se atrás  de um perfil falso para proferir tais insultos e difamações.A mulher é  normalmente apresentada  como um objecto sexual, um objecto que se deve e se pode possuir, sem voz nem vontade próprias.

Estes ataques têm um cariz tão machista que raramete  as mulheres são apresentadas como incompetentes ou corruptas ou outra coisa qualquer. Normalmente são  chamadas de prostituta, de infiel, de desavergonhada, des-qualificativos estes sempre referentes á sexualidade da mulher.  Nestes casos estamos perante gente sem preparação, sem formação, sem educação aos quais as novas tecnologias deram voz . As novas técnologias de informação em mãos erradas pode  pode causar muitos danos à sociedade
Numa sociedade como a nossa com imensos entraves de character cultural e religioso à emancipação da mulher as tecnologias  de informação e comunicação só podem funcionar a favor da  igualdade  de  género  se houver um trabalho consciente, coerente e planeado no sentido de cumprir com o direito das mulheres ao acesso às tecnologias .
As tecnologias de informação e comunicação estão aí mas  tudo depende da direção e do uso em beneficio do desenvolvimento que se fizer dela.

b)    Os INSTRUMENTOS FORMAIS em principio existem e  são eles:
A Política de igualdade (PNIEG II) que a ser de facto implementada  com toda a
certeza teria em consideração o aspectos das tecnologias de informação e comunicação e o acesso, controlo e domínio que as mulheres devem ter destas mesmas tecnologias.
A lei de enquadramento   Lei n.o 5/2010 estabelece o regime jurídico aplicável à politica do Governo relativa aos serviços e redes das TIC, bem como aos recursos e serviços conexos, e define as competências da ARN-TIC neste domínio com o intuito de promover o desenvolvimento das TIC na Guiné-Bissau; 

· Promover e mostrar o papel das TIC na Guiné-Bissau como instrumento fundamental para o desenvolvimento económico e social; 

· Criar condições favoráveis à emergência e desenvolvimento de um setor concorrencial das telecomunicações e facilitar o acesso a esses serviços com os melhores preços possíveis; 

· Promover inovações de tecnologia e o seu uso para as comunicações
Plano do Governo  PNIEG com o programa “TERRA RANKA”



c)     A situação de facto da Guiné-Bissau ? Estudos?

Estudo sobre o marketing an Guiné dos telemóveis (Não apreseta Uma desagregação de dados o que seria bom para analizar a diferença do  uso deste instrumento entr homens e mulheres )Miguel Barros e Lucy Monteiro)

Estudo sobre a Comunicação Social an Guiné-Bissau de  Antóno Soares faz uma abordagem  de género no seu Estudo sobre a Comunicação social mas que é de character  quantitativo e relacionado com os orgãos tradicionais de informação tais como a radio, televisão e jornais e não  própriamente a outras formas de comunicação digital que as técnicas de comunicação nos permite hoje


d)    Qual será o domínio técnico e o nivel de acesso  das mulheres guineenses a estes meios de comunicação social ? (Um caso de estudo ???)
·      Redes sociais
·      Blogs
·      Webbpages
·      Nivel de construção das próprias actividades a nivel digital )ex. negócios, revistas, páginas de opinião)
·      Acesso às formações online
·      O nivel de capacidade de influenciar através dos meios digitais de informação
·      Capacidade de mudar a imagem tradicional da mulher nos meios de comunicação social

No entanto não basta facilitar  o acesso  das mulheres aos meios de comunicação para que a intervenção seja emancipatória ou empoderadora . Há aspectos sociais e culturais que podem pesar e que têm ou devem ser considerados  ao mesmo tempo que o direito ao acesso é cumprido.

Exs. práticos

O uso destes meios de comunicação social embora livres, alias por serem livres podem e devem  ser orientados, monitorados sob pena tar efeitos negativos para o desenvolvimento. Serem monitorados e ou orientados não significa  restringir a liberdade de acesso e utilização  mas sim  criar um ambiente propício a uma utilização produtiva e benéfica para o país e seus cidadãos em especial para grupos vulneráveis tais como mulheres, crianças,  deficientes, etc.. É por exemplo responsabilidade do Estado criar programas, espaços e oportunidades  para que os grupos menos favorecidos e descriminados tenham  acesso a estes meios de informação e comunicação. 


Ter em atenção que não basta o acesso, uso e dominio destes meios de comunicação para que o empoderamento das mulheres/meninas esteja garantido. Não basta  dimensão económica , a independência financeira gerada pelo negócio das novas tecnologias ou outros negócios.  Há factores de character social e cultural que interferem com o empoderamento. Um estudo desenvolvido em  vários países de África ( African Women & ICTs- Investigating Tchnology, Gender and Empowerment)[4] demonstra em vários exemplos esta realidade de que nem sempre o acesso e a independência económica proporciona o empoderamento.

No entanto as tecnologias aí estão e tudo depende de como se aproveita as oportunidades que estas mesmas tecnologias oferecem adaptando as estratégias criadas à conjuntura, a factores sociais, económicos e culturais de cada país.
 Os países devem obviamente ter uma orientação/estratégia geral  mas se se pretende cumprir com as metas do desenvolvimento sustentável (2015-20130) nomeadamente a meta nr. 5 , o da igualdade,  há que tern uma atitude po-activa na formulação e na implementação de estratégias que visam específicamente atingir o objectivo de cumprir com o direito de acesso das mulheres aos meios de informação e comunicação. 

e)    Os possíveis constrangimentos no caso da Guiné-Bissau :

·      As mulheres o grupo mais atingido pela pobreza
·      Baixa renda
·      Menos tempo que os homens para estar online e fazer descobertas.
·      A instabilidade politico –militar permanente
·      Aspectos culturais que impõe sempre os rapazes como prioridade an familia
·      As tecnologias de um modo geral visto como uma área masculina (não só an Guiné-Bissau)
·      Baixa auto-estima das mulheres
·      Maior taxa de analfabetismo no seio das mulheres



f)     Que tipo de envolvimento das mulheres/meninas em relação aos vários meios de informação e comunicação ?


Uso de Telemóveis  Criar meios para que as mulheres possam fazer uso do telephone por via de  preços acessiveis,  pela aproximação geográfica dos meios de comunicação, pela aprendizagem através de cursos de curta duração  acessiveis ao seu nivel de educação, pela alfabetização em massa com o objectivo concreto do uso do telemóvel

Formações/Capacitação  Monitorar, fazer o seguimento  da participação das mulheres e meninas em  cursos de engenharia informática, cursos de informática de curta duração entre outros cursos nesta área. Saber quantas mulheres terão acesso a estes cursos, incentivar as candidaturas femininas a estas formações, quebrar o tabú de que são formações essencialmente masculinas e encorajar as meninas a entrar para estas formações.

 Niveis de capacidade de utilização da tecnologia digital –Os níveis em que as mulheres/meninas fazem uso dos meios de informação e comunicação digital:  se detêm domínio técnico para usar os softwers, apps, webbpages em benefício próprio contribuindo ao mesmo tempo para construir e difundir  uma imagem diferente da imagem patriarcal da mulher/menina como donas de casa, empregadas domésticas, na melhor das hipóteses em algumas profissões tradicionalmente consideradas femininas tais como autoras de  páginas e programas de make up, de moda, de cabeleireiras ou an cozinha,  entre outras …


g)    Resultados qualitativos ou quantitativos ? O caso da Guiné-Bissau

Se analizarmos os meios de comunicação social tradicionais na Guiné-Bissau podemos em termos quantitativos verificar que aumentou o nr. de mulheres na comunicação social [5]mas será que os trabalhos realizados nestas áreas tais como os artigos escritos,  reportagens, weeb pages, etc..apresentam  alguma relevância para a mudança de visão sobre o papel da mulher na sociedade guineense? Não bastam numeros é necessário que ao aumento de número corresponda uma certa diferença na influência que este número de mulheres pode causar na visão que a sociedade tem das próprias mulheres.


PARA FINALIZAR :

7.     Um Ex. de utilização das TICs pelas mulheres directamente dirigidas ao empoderamento das mesmas

Um ex. de como as mulheres bem preparadas nesta área podem usar os TICS como instrumento de empoderamento e de combate às desigualdades

Coding Rights, fundado pela pesquizadora Joana Varon. Numa entrevista que pode ser vista na webb ela diz o seguinte:

“ A Coding Rights é uma organização liderada por mulheres dedicada a promover a compreensão sobre o funcionamento de tecnologias digitais e expor as assimetrias de poder que podem ser ampliadas por seu uso. Nosso trabalho envolve o monitoramento e análise de códigos legais, culturais e de programação para influenciar políticas públicas e incentivar boas práticas. Somos parte de uma rede global de ativistas que criam e compartilham ferramentas e estratégias para o uso mais autônomo e consciente das tecnologias e para a inclusão da perspectiva dos direitos humanos quando se pensa nos meios digitais.

“Nossos projetos são desenvolvidos nas seguintes áreas:


Gênero e sexualidade nos meios digitais
Espaços virtuais  especialmente fazendo o meanstreaming das plataformas que dominam a internet  nos dias de hoje e que refletem as mesmas desigualdades, o sexism, o racism a chenofobia ameaças aos direitos e liberdades de expressão, de informação e a segurança.

Código e direitos humanos
Esta área temática leva a dinâmica política do hacking ao seu núcleo, buscando enfrentar os desafios de fundir as comunidades que trabalham em ferramentas tecnológicas e aqueles que trabalham na defesa da proteção dos Direitos Humanos no ambiente digital.

Resposta à emergências de políticas públicas
Trabalham, analizam a forma como os Direitos Humanos são afetados ou reforçados por políticas públicas voltadas para as tecnologias digitais ”.


 O Coding Rights tem como valores :
·      A acessibilidade,
·       transparência,
·       igualdade,
·      privacidade  
·      liberdade no acesso

De uma forma talvez simples pode-se dizer que :
“O Coding Rights defende que os usos das tecnologias na interação com os processos de governanção estão no ponto central do desenvolvimento de uma rede direcionada as pessoas numa sociedade democrática. Os projetos são destinados a enfatizar esses valores, capacitando a sociedade civil, e em particular as mulheres de diferentes áreas em todo o mundo, para promover uma mudança no ambiente de tecnologias da informação e comunicação, que por enquanto é um ambiente liderado em sua maioria por homens.” [6]

(E por aqui fica esta  minha modesta tentativa de levantar algumas questões numa área que deve ser pensada e direcionada a sua utilização na Guiné-Bissau ou em qualquer parte do mundo nos dias que correm




Helena Naves Abrahamsson
Human Rights & Gender Specialist








[1] www. The Guardian.com- The code how women in Nigeria change the face of technology
[2] Estudo “A Evolução dos Sistemas de Informação em África: Um Caminho para a Segurança e a Estabilidade” por Steven Livingston
[3]  Estudo “A Evolução dos Sistemas de Informação em África: Um Caminho para a Segurança e a Estabilidade” por Steven Livingston
[4] Ineke Buskens and Anne Webb
[5] Estudo  Comunicação Social na Guiné-Bissau”-António Soares Lopes
[6] Definição Wikpedia