Bissau chove há quase 2 dias sem parar. Normalmente a chuva é sinal riqueza e de abundância. Abundância de verde, abundância de comida, abundância de água, o prenúncio de uma vida que cresce, que floresce e que se desenvolve. Devia ser assim. Mas nem sempre é. Aqui neste meu canto do mundo a chuva põe à mostra toda a nossa vergonha, a nossa pobreza, a nossa miséria.
Ela sempre viveu por aqui, no centro do bairro de Chão de Papel, numa casa humilde coberta de palha que escapou aos buldozeres da Câmara de Bissau da época colonial quando urbanizaram esta zona. Hoje em vez de uma casa melhorada, os sucessivos infortúnios do tempo transformaram a casa, outrora coberta de palha, numa barraca precária coberta de chapa esburacada. Uma parte do espaço da antiga casa que desapareceu e o quintal, antigamente, espaço de convívio da família foi dividido em pedaços para arrendar. Ali nasceu um Clandô para almoços de baixo custo e um contentor feito loja de produtos de primeira necessidade. É destas rendas que a familia sobrevive. Esta manhã, com um pano aos ombros e olhos tristes ela passeava debaixo da chuva. Saio de casa, vejo-a e pergunto " Mi o que estás a fazer debaixo da chuva ? Tu que ainda por cima andas sempre doente" . Volta-se para mim e com a maior naturalidade do mundo diz-me " Leninha bom dia. Como estás e os teus rapazes ? Tens noticias ?" . E eu surpreendida pela sua naturalidade respondo com alguma impaciência , aquela impaciência apenas aceitável entre pessoas que se conhecem há muito tempo " Mi , mpuntau , kêê kuu na fassi bas di tchuuuba?" . Resposta dela : "Waii ... dentro ou fora de casa … huuummmm …nada escapa a esta chuva matreira de vários dias. A casa está alagada o quintal pior ainda. Dentro ou fora de casa tanto faz". Olhei para ela e claro fiquei sem palavras. A seguir falámos de outras coisas e ela sem raiva, nem revolta, com o olhar e a voz doces, mudou de conversa e prosseguiu falando de coisas banais. Pensei cá para mim: "Ela aprendeu a proteger-se da dor abstraindo-se da realidade ".
A pobreza excessiva provoca conformismo, apatia, aceitação do inaceitável.
A pobreza é nossa vizinha, mora ao nosso lado, em cada esquina, em cada quarteirão desta cidade, desta terra tão bonita, tão rica de tudo menos de vontade humana para mudar.
