É
urgente acabar com a cultura do medo no seio das mulheres. É urgente impôr e repor a cultura do respeito pelas mulheres na
Guiné-Bissau. A consequência da cultura
do medo é viver num país onde impera o cinismo, a hipócrisia, a calúnia, a destruição do bom nome, a traição entre outras atitudes nocívas ao crescimento
são e próspero de qualquer sociedade. Nesta desestruturação do tecido social
guinense ao longo dos anos as que mais sofreram e sofrem são as mulheres.
Nós as mulheres sempre com medo, com
receio que aconteça algo aos nossos filhos, ao nossos companheiros, ao pai, aos
sobrinhos entre outros entes queridos. Por tudo isto vamos recalcando os nossos
anseios, calando a própria voz, freando o
nosso direito de expressão e de participação na sociedade.. A moeda de troca pretendida é tão simplesmente a salvaguarda da integridade física e psiquica
dos nossos. Foi-nos incutida ao longo de séculos a cultura da moderação, da descrição, da contenção
e sobretudo aquela cultura que nos impõe a obrigação de velar pelo bem
estar da familia. Somos nós mulheres as primeiras responsáveis da familia
, do bem estar das pessoas que nos
rodeiam neste país.
Qualquer
que seja a etnia, religião ou credo somos educadas, preparadas, desde tenra idade, com esta enorme responsabilidade (ou será fardo?) sobre os ombros . Esta responsabilidade
leva-nos muitas vezes a optar pelo silêncio e consequentemente restringir a
nossa voz e as nossas ações a circulos muito restritos . Sair da famlia, fazer ouvir a
nossa voz a nível da comunidade, do país, em circulos de decisões visíveis e
determinantes para mudanças mais profundas e abrangentes a nivel social e
político constitui ainda para muitas um
passo gigante. Muitas mulheres têm medo e na Guiné-Bissau de hoje as mulheres
têm medo da violência, medo de represálias, medo que os seus entes
queridos sejam alvo de vinganças , medo das barbaridades que podem acontecer em
sociedades desestruturadas como a nossa. Mas a mulher guineense, culta e bem
formada, de hoje, tem medo sobretudo
desta nova arma que deu voz a um batalhão de imbecis, que são as redes sociais. [1]É
verdade que a internet, as redes sociais em particular trouxeram imensas
vantagens á humanidade mesmo a países menos desenvolvidos como o nosso. É incontestável
as vantagens que desta podemos auferir e as suas potencialidades como alavanca
para o desenvolvimento. Mas por outro lado também deu voz a grandes idiotas.
Mais do que em qualquer sociedade, a nossa talvêz por ser demasiado pequena e por
estes meios técnológicos estarem concentrados nas mãos de uma minoria
priveligiada, letrada, mas não própriamente bem educada e bem formada,
transformou-se numa espécie de arma
letal, opressiva e redutora da expressão
e participação das mulheres guineenses. As
redes sociais transformaram-se em armas
de destruição massiva da reputação e o bom nome de qualquer familia desde que
uma mulher tenha a ousadia de intervir e fazer ouvir a sua voz fora daquele circulo que as mentalidades patriarcais lhe
reservaram.
Fazer
parte de circulos ou esferas mais alargadas e
determinantes para a mudança é sem dúvidas um acto de coragem para
qualquer mulher neste nosso mundo de mentalidade patriarcal, machista e muito
rudes que roçam a disturbios tipo psicopatia.
A mulher guineense tem ainda um longo caminho a
percorrer para que atinja os níveis mínimos desejáveis de participação na vida
pública e política . O medo, a sociedade patriarcal, cruelmente machista e retrograda em que ainda se vivemos faz com que muitas mulheres, bem preparadas, se remetam ao silêncio, agindo com muita
descrição, restringindo-se ao papel de boa professional, boa mãe, esposa e
pouco mais. O passo para a vida pública sempre foi grande mas com o fenómeno
das redes sociais tornou-se gigante. A
vida pública, em particular a vida
política para as mulheres na Guiné-Bissau, implica expôr-se, ser objecto de insultos do mais baixo nível,
de calúnias monstruosas, de mentiras escritas e publicadas sem qualquer interesse
publico ou qualidade mas que servem para deixar manchas, por vezes, com riscos de consequências irreparáveis na
vida destas mesmas mulheres.
Mas há
que ousar pôr o pé fora da prisão
virtual a que nos querem restringir. A vida pública tem grandes riscos e em
especial num país, como o nosso, onde passoas não preparadas quer academicamente
quer em termos de formação humana descobriram que a política pode ser um meio
fácil de sobrevivência e daí estarem dispostos a usar todos os meios para
manterem essa fonte de rendimento. Os países com melhores índices de
desenvolvimento são os que colocam o ser
humano no centro das decisões e das prioridades (nomeadamente os países do
norte da Europa). A verdade é que
colocar o ser humano no centro das
prioridades passa obrigatóriamente pela implementação de políticas de igualdade
de género entre outras igualdades que se impõem tais como a redução das
desigualdades sociais. Não é possível o
crescimento económico e social sem uma implementação séria de regras e
princípios tais como o direito ao respeito, à integridade, ao bom nome, à
liberdade entre outros que tanta falta fazem hoje à nossa jovem democracia.
A minha
sensação hoje, salvo opiniões contrárias, é de que houve um enorme retrocesso no que se refere às conquistas da mulher
guineense. A minha geração (os 50 +) muito cedo ouviu falar
sobre os direitos da mulher, sobre a dignidade da mulher, do papel importante da
mulher no desenvolvimento em pé de igualdade com os homens. Éramos crianças com idades compreendidas entre
os 9 e os 11 anos de idade aquando da independência da
Guiné-Bissau. Eu pessoalmente considero
que esta consciência de igualdade, em tão tenra idade, devemo-la à participação
das mulheres na luta armada, devemo-la aos ideólogos da nossa independência,
devemo-la à luta pela Independência da Guiné e Cabo-Verde. Numa só frase diria que esta consciência precoce pode ser
vista como um dos resultados mais visíveis e concretos da implementação das
ideias e filosofia de Amilcar Cabral. Não obstante a pequenês do nosso
país, em termos de dimensão e população,
houve um periodo áureo da nossa história em que a Guiné-Bissau foi um exemplo em África e que foi o periodo da luta contra o
colonialismo português e os primeiros anos da independência (anos 60 e 70).
Um exemplo interessante que ilustra o lugar cimeiro que a mulher
ocupava na política guineense naquele periodo é o facto de a GB ter sido o primeiro
país em Africa a ter uma mulher Presidente da República. Pouca gente sabe disso e normalmente, a Libéria , é apontada como sendo o primeiro país da
África a ter uma mulher Presidente da República . Não é verdade. Se a memória
não me falha, foi nos anos 80, em que a Sra. Carmen Pereira, enquanto Presidente da Assembleia Nacional Popular , por impedimento
do Presidente da República, durante 4
dias, ocupou o cargo de Presidente da República da Guiné-Bissau. Durante os
primeiros anos de independência até meados dos anos 90, houve mais mulheres em cargos de decisão política mas que infelizmente
foi decrescendo à medida que as crises politico-militares se foram instalando.
Muito cedo a Guiné-Bissau
teve uma legislação que se pode considerar bastante progressista
para a época e que favorecia a situação da mulher de muitas formas. Desde logo
a Constituição da República de 1973 estabeleceu a igualdade entre homens e
mulheres (arts. 24 e 25 ) e em termos de
legislação avulsa tivemos a lei do divórcio que introduziu o mutuo
consentimento como fundamento de divórcio, a
liberalização do aborto desde que praticada em condições de
segurança e haja consentimento dos dois parceiros, a lei da
união de facto que veio permitir, sem preconceitos próprios de ordenamentos
jurídicos influenciados pelas regars do catolicismo, o reconhecimento oficial da vida em comum
entre um homem e uma mulher e ainda a
lei de igualdade entre filhos que elimina a diferenciação entre filhos
legitimos e ilegitimos. Diria que a luta e a independência abriram novos
horizontes às mulheres guineenses no que
se refere à sua afirmação enquanto titulares de direitos e obrigações e enquanto cidadãs. Infelizmente, como em quase todas as áreas da vida nacional,
houve um grande fracasso e a igualdade
de direitos da mulher teve o mesmo
destino ou seja um retrocesso considerável.
Este retrocesso é comprovado não só pelas estatísticas que nos
apresentam as diferenças no número de
mulheres em cargos de decisão entre os anos 80/90 e os dias de hoje, mas também um retrocesso no próprio
comportamento da sociedade face à imancipação da mulher. As mulheres que outora
participaram na luta armada, que fizeram parte dos orgãos politicos de decisão
nos primeiros anos da independência gozaram de uma comprovada aceitação,
tiveram a admiração e o respeito por parte quer dos protagonistas politicos da
época quer da população em geral. Quem
viveu o pós-independência na Guiné-Bissau há de se identificar de uma forma ou
outra com o aqui exposto. No entanto o
processo do pós – independencia não foi linear e a constante instabilidade
politico militar que assolou o país
entre outros factores, provocaram um retrocesso
no processo de desenvolvimento afectando sobremaneira a participação das
mulheres nos centros de decisão. A Guerra civil de 1998 acabou quase por pôr
fim a esta participação passando o foco da vida política do país a estar quase que exclusivamente concentrado na
resolução dos sucessivos conflitos.
No
centro de tantos desaires um aspecto positivo deve ser mencionado que é o
desenvolvimento de uma sociedade civil mais forte e mais coesa que através do surgimento e das acções de várias organizações de mulheres manteve-se o tema no
centro das preocupações nacionais. Através deste movimento a luta pela
imancipação manteve-se acesa e o tema
não foi totalmente eliminado do debate
publico não obstante a fraca participação das mulheres em termos reais.
Os
constantes conflitos não desestruturaram apenas o próprio Estado mas sim
provocaram uma forte degradação de valores ético-culturais e
alguns princípios ideológicos originados pela luta de libertação. A importância
vital que se deu á participação da mulher na luta armada e consequentemente nos
anos a seguir á independência não só foi desaparecendo como as mulheres que ousarem entrar na política passaram
a ser alvos a abater. Refira-se que não
são alvos a abater num confronto político ético e transparente mas sim pelas
formas mais desonestas que se possam imaginar: por via de insultos, difamação,
mentiras que recaiem não só sobre a vida privada destas mulheres mas mais
específicamente sobre a sua vida íntima, sobre aspectos da vida privadas cujo
resguardo é fundamental para a própria auto-estima da mulher e de sua familia..
Passámos
de uma sociedade machista para uma cruelmente
machista e de um machismo execrável. Já
não bastam as regras da sociedade patriarcal que as mulheres e meninas guineenses
têm que enfrentar diáriamente e que as submete às mais diversas formas de maus
tratos e humilhações, desde mutilação
genital, casamento forçado e outras formas de violação dos seus direitos
humanos, agora, também têm que enfrentar
estes machos da praça sem rosto que são
as redes sociais. A verdade é que estes machos da praça pouco mais sabem que juntar letras e formar insultos, atirar calúnias sobre mulheres que ousaram pôr
o pé fora do círculo que a sociedade tradicionalmente lhes reservou. A verdade
é que estes “machos da praça”, que na sua maioria se escondem atrás de um écran e de um perfil
falso são seres de mente pequena, com
uma percepção distorcida e doentia da mulher. A mulher , para esta espécie de vermes, é
vista apenas como um objecto sexual, um objecto que se deve e se pode possuir, sem
voz nem vontade próprias. Reparem que no nosso
país as mulheres raramente são acusadas de corruptas ou de incompetentes por estes machos da praça. A mulher é sempre chamada de prostituta, de
infiel, de desavergonhada, des-qualificativos estes sempre referentes á
sexualidade da mulher. Na verdade estamos
perante gente sem preparação, sem formação, sem educação aos quais as novas tecnologias
deram voz . Mas também não deixa de ser verdade que estes senhores (ou
senhoras) só encontram audiência porque estamos num país em que os níveis de
educação da população explicam tudo. Não basta saber escrever para se ter
educação ou ter uma população bem formada. É preciso muito mais do que saber
ler , escrever e usar um computador. As
novas técnologias de informação em mãos erradas pode pode causar muitos danos à sociedade. Mas eu acredito profundamente que as mulheres saberão
aos poucos gerir este tipo de situações
e irão certamente encontrar recursos internos, uma espécie de vacina, que lhes irá permitir enfrentar este tipo de
vermes que infestam o nosso país em particular o nosso Bissauzinho.
A
luta é árdua mas a vitória não é impossível . As mulheres guineenses têm
potencialidades para vencer desde que decidam sair de casa.
Helena
Neves Abrahamsson
(Publicado pelo Jornal o Democrata - Março, 2018)

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